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Mártires PIME

SANTO ALBERICO CRESCITELLII
(30/6/1863 - 21/7/1900)

 

17 de agosto de 1888, outra interminável jornada chega ao fim. Para os barqueiros ela foi cansativa, mas também para o Pe. Alberico Crescitelli e seu coirmão, o padre Vicente Colli. Também pudera, pois desde o dia 30 de maio, o barco, está subindo lentamente o rio Han, de Hankou a Xiaozhai, a meta final dos dois missionários. 

Padre Alberico já se recolhera no apertado alojamento dos viajantes, uma casinha com o teto em esteiras e paredes de tábuas desconexas. Pelas frestas passam o vento, a chuva, o ar sufocante, o fedor, a fumaça ardida e ofuscante que vem da cozinha ao lado. Da popa provêm vozes sussurradas dos remadores chineses que, exaustos pelo duro trabalho do dia, fumam ópio ou tabaco e jogam baralho. Enrolado no cobertor imundo, perto do padre Vicente que, deitado à moda chinesa, com os pés perto de seu rosto, o padre Crescitelli está quase desmaiado. Depois de 132 dias de navio de Marselha a Xangai, ainda esta viagem extenuante... Quanto ainda está longe a missão? Não consegue adormecer. Pensa na fadiga daqueles trabalhadores chineses: "Também hoje o Senhor nos assistiu. Não tivemos desgraças. Pergunto-me, entretanto, como o barco conseguira resistir aos choques de tantos recifes. A correnteza, em certos pontos, era tão forte que uns cinqüenta homens eram necessários para puxar o barco com muita fadiga". 

Há muito tempo, abandonaram a paisagem monótona das vastas planícies, interrompidas somente por raros salgueiros e por poucas e miseráveis habitações. Lá, era suficiente puxar lentamente o barco com cordas de bambu, cadenciando o passo, um atrás do outro ao longo das margens do rio. Também as colinas incultas deram lugar às ingrimes montanhas. O curso do rio se torna, cada vez mais, impenetrável. Os puxadores fizeram esforços sobre-humanos para vencer a correnteza. O timoneiro teve que usar toda  prudência e habilidade para evitar que o casco do navio se despedaçasse contra as rochas salientes, ocultas entre o espumar das águas. Hoje, mais de uma vez, os passageiros tiveram que descer do barco para costear a pé o rio, nos seus pontos mais perigosos. 

A mente do missionário retorna às lembranças. Por um momento, esquece os incômodos da viagem e se volta aos verdes morros da Irpínia, que percorreu em todas as direçoes, cuidando das terras de seu pai. De fato, ainda criança, logo que terminou o primário, seu pai, farmacêutico de Irpínia, escolheu-o para controlar os trabalhadores na lavoura. É o mais forte e mais esperto dos dez irmãos. Durante anos, dedicou-se com prazer a este trabalho, mas em 1878, aos quinze anos, decide retomar os estudos. Já há algum tempo que substitui o jogo pela biblioteca do cônego Rafael Crescitelli, onde lê avidamente livros de história, de ascese, de liturgia. Faz da leitura seu "hobby" preferido. 

Recorda também, como se fora ontem, a entrada do seu irmão Luiz no serviço militar. Declarado inapto, Alberico discute com a mãe sobre este "privilégio". Assim, uma conversa puxa outra, e -finalmente - confessa o sonho que acalenta há dois anos: tornar-se missionário. As lembranças vagueiam ao longo dos anos de seminário. Lembra-se daquele longínquo 8 de novembro de 1880, que marcou sua entrada no Pontifício Seminário dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo de Roma. E a apaixonante canseira ao estudar latim, filosofia, teologia, alternadas à alegria das férias na sua cidade de origem. Também lhe vem à mente o triste verão de 1883, quando o pai e sua irmã Rosina ficaram sepultados entre os escombros de Casamicciola, durante um violento terremoto. Recorda-se da epidemia de cólera que estourou em 1887, na Campânia, pouco depois de sua ordenação sacerdotal. Já destinado à China, tinha retornado à sua cidade, onde, durante quatro longos e extenuantes meses, dedicou-se à assistência aos infectados de cólera, o que lhe atrasou o embarque para a missão. E novamente acorre-lhe a lembrança das mortes no rosto de tantos amigos. 

O vozerio dos chineses desperta-o de sua melancólica sonolência. A trança do coirmão faz cócegas nos seus pés. Para ser chinês entre chineses, ambos se adequaram também aos hábitos locais. Assim, antes de subir no grande barco, deixaram-se transformar pelas tesouras do barbeiro e aos cuidados do alfaiate. Padre Alberico ria-se de si mesmo. 

Desde criança, Alberico teve problemas de calvície. Agora, aos 25 anos, tem a cabeça raspada a zero, mantendo um topete curto e ridículo no meio da nuca, entrelaçado de qualquer jeito. Para remediar o inconveniente, obriga-se a usar um chapeuzinho aderente, provido de trança postiça. E o que dizer da roupa, longa até aos pés, e das mangas tão largas? Relembra a foto enviada ao irmão Luiz: "Quase irreconhecível, arrumado deste jeito, todavia sou eu mesmo!". 

Deixando-se embalar por estes pensamentos, pega no sono. Desta vez, porém, a despertá-lo são vozes italianas, mescladas ao berreiro da multidão reunida na beira do rio. O dia é 18 de agosto de 1888. O sol já está alto. Enfim, após 81 dias de navegação pelo rio Han, os padres Crescitelli e Colli chegam a Xiaozhai, cidade de antiga cristandade, onde os esperam os coirmãos, que estão na localidade há três anos. 

Uns dez dias bastam para os recém-chegados descansarem da extenuante viagem e ambos se mudam para Hanzhong, sede do vicariato apostólico do Shaanxi meridional, para se submeterem "à tortura intelectual do estudo do chinês". Após apenas nove meses de aprendizagem, é confiado ao padre Alberico o distrito de Sijiaying, que se estende entre os vales e colinas que cercam o rio Han. Mil cristãos se espalham por sete aldeias.  

Muito ativo na assistência aos cristãos e na formação dos catecúmenos, Alberico percorre em todas as direçoes o território a ele destinado. Viaja entre montes escarpados e planícies lodosas, cheias de arrozais. Cavalga com dificuldades devido a uma doença congênita. Enfrenta veredas intransitáveis e, contra a sua vontade, é obrigado a subir na liteira. O continuo viajar obriga-o a aceitar, freqüentemente, hospedagem ocasional entre "pagãos", pois os cristãos montanheses são paupérrimos. Um quarto de palha, um aposento esfumaçado, um armazém úmido e escuro, uma hospedagem fria e insegura... O missionário dorme e celebra Missa em qualquer lugar. 

Mas, se seu espírito de adaptação é deveras admirável, sofrimentos de outro tipo o atormentam. Entre as provações às quais foi submetido, talvez a mais difícil é a causada pela aparente ineficácia de seu trabalho apostólico: "Os chineses se mostram indiferentes, ou até  hostis". Todavia, escreve a seu irmão: "quem é feliz nesta Terra? Você mesmo considerou-se muito infeliz; quantos, porém, são mais infelizes que você! Também eu estou sujeito a tanta miséria! Também eu vivo momentos de tédio, de prostração, de desilusão, de tentação, de perigos talvez ignorados e de provação. Quem, sobre a Terra, pode se livrar disso? No entanto, até agora acredito ser menos infeliz do que a maioria das pessoas: em qualquer país onde a gente vive, a providência permite sofrimentos às nossas forças, para que possamos suportá-los e estamos melhor, quando estamos onde Deus nos quer. Atualmente estou muito bem".  

E, desta maneira, ele faz catequese, defende os fracos, assiste  e ajuda, ensina agricultura, adquire lotes de terra para dar sustento aos pobres e aos andarilhos. Apesar disso, nem sempre é recebido com entusiasmo ou, pelo menos, com respeito. Seu otimismo é desconcertante, ainda que haja, em toda a China, uma sutil forma de perseguição contra os cristãos e os missionários estrangeiros, considerados lacaios das grandes potências e cúmplices da sua política de penetraçao no Celeste Império. 

Notícias alarmantes de desordens e perseguições chegam à Itália, mas padre Alberico, em 1896, escreve à sua mãe preocupada: "O que temes? Estou nas mãos de Deus... Pois faça-se Sua vontade e basta... Desde que o Senhor me dê força, qualquer coisa que aconteça será o melhor para mim". E ainda: "Não te preocupes comigo, se ouves que, em outras províncias da China, aconteceram massacres, se pensas no que te escrevi anteriormente, vais te convencer que aqui não há nada a temer, desde que não hajam circunstâncias imprevisíveis. Os cristãos, à exceção de outros vicariatos, estão unidos e os pagãos nos temem e respeitam e nem ousam nos injuriar.

Além do mais, a índole do povo é pacífica e, em geral, pagãos e cristãos se dão bem. A respeito dos mandarins, ainda que interiormente não gostem de nós, eles sabem que, apesar das secretas instruções para nos criar obstáculos, a corte imperial não quer, sem dúvida, que se chegue à perseguição, pois isso colocaria o governo em situação embaraçosa. Eles mesmos, portanto, têm interesse em manter a ordem, porque provocar os cristãos, em número considerável e unidos, ser-lhes-ia perigoso e poderiam perder o cargo. Sabe-se também que o mandarim daqui abrandou, na prática, editos imperiais durante as mais ferozes perseguições. Desde que há cristãos, aqui em Shangyuanguan, nunca aconteceram verdadeiros massacres. Apenas um padre chinês foi martirizado quando assolou a perseguição, mas não por causa do mandarim. Neste mesmo tempo, muitos foram espancados e até exilados, mas ninguém foi torturado com selvageria". 

Porém, esmagado o movimento reformista em 1898, a luta anti-estrangeiros explodiu abertamente e muitas sociedades secretas nacionalistas adquiriram mais força. Entre elas, a sociedade dos Boxer, no início tacitamente  sustentada e apoiada  por alguns expoentes do governo, depois oficialmente estimulada pela  própria imperatriz.  Assim, justo quando estas duas forças se uniram, massacres e ataques se espalharam como manchas de óleo, especialmente em Shaanxi, onde, desde dezembro de 1889, Yu Xian assumira o governo da província. O governador era inimigo mortal dos estrangeiros e protetor dos Boxer. Eles criaram centros de treinamento, destruíram trechos da ferrovia e derrubaram os postes de telégrafo, símbolos da ingerência estrangeira. Encarniçaram-se, de modo especial, contra os cristãos que, denegridos e ultrajados, foram perdendo, cada vez mais, os direitos sociais e  humanos.  

É bem neste contexto que padre Alberico, em 1900, é transferido para outro distrito, Ningqiang. Um lugar selvagem entre montes sulcados por torrentes e vales estreitos, com a maioria da população constituída por descendentes de condenados a trabalhos forçados e ao exílio, devido a delitos cometidos. Um lugar longe da vigilância do governo e de difícil acesso, que - portanto - favorece o surgimento de sociedades secretas, hostis a qualquer forma de autoridade legal. Além do mais, quando lá chega o padre Crescitelli, a região é assolada por uma terrível carestia.  

Padre Alberico conhece bem o que vai enfrentar, mas está disposto a tudo. "Quem sabe como serão as coisas naquele longínquo distrito; seja como for, a vida e a morte estão nas mãos de Deus: não cai folha que Deus não queira. Tenham coragem e não se preocupem comigo. Estou nas mãos de Deus e estou contente. Meu anjo da guarda cuida de mim... Um enorme trabalho me espera. Melhor assim, do que sofrer de tédio por falta de ocupação". 

Assim, ele recomeça a viagem através um território desconhecido. No trajeto, entra em contato com a dolorosa realidade da qual tanto ouvira falar. Ao longo da estrada é toda uma sequência de ruínas; casas destruídas, destelhadas, para vender suas telhas, lixo espalhado por todo canto, de onde surgem crianças esquálidas, de olhos lívidos e encovados, mulheres como "cadáveres ambulantes" procurando alguma coisa para vender ou comer. Nada há para mitigar a fome e muitos se obrigam a moer a casca das árvores para comê-la cozida, misturada a raízes de ervas. 

Pelas leis imperiais, os celeiros públicos deveriam garantir a alimentação das populações em período de carestia, mas as milícias irregulares os saqueiam. Muitos celeiros das províncias vizinhas estão ainda repletos, mas ninguém se preocupa com o transporte. Felizmente, as autoridades locais pedem o indulto de impostos a Pequim, além de ajuda alimentar, e conseguem que os soldados imperiais tragam arroz para a região. Mas aos cristãos é negada toda ajuda. 

Segundo Teng, um senhor prepotente que manda e desmanda na região, enriquecido com a usura e hostil ao cristianismo, os cristãos chineses traíram a China, não são mais chineses, mas demônios estrangeiros que seguem doutrinas ocidentais. Não têm, portanto, nenhum direito de reivindicar na sociedade chinesa. Padre Crescitelli se opõe, com todas as forças, a estas injustiças. Recorre ao mandarim da cidade, que lhe dá razão. A medida desencadeia, porém, contra o estrangeiro, o ódio e o desejo de vingança dos líderes locais. 

A situação vai-se tornando cada vez mais crítica e começam a circular boatos inquietantes. Trama-se sua morte. Mas padre Alberico parece não se dar conta de nada, pelo contrário, está satisfeito por ter conseguido o subsídio também para os cristãos, ainda que reduzido pela metade e feito com trigo em lugar do arroz. No dia 10 de julho de 1900 escreve ao vigário apostólico: "Em Yanzibian reina uma paz nunca vista e as brigas terminaram como por encantamento". Uma estranha calmaria antes do furacão. 

Entretanto, no dia 5 de julho é publicado, em Pequim, um decreto imperial que estabelece a pena de morte aos cristãos que não renunciem à sua religião. O decreto também exige o retorno de todos os missionários estrangeiros para sua pátria. O Vice-rei do Shaanxi não publicou o decreto, mas o conhecimento dele chega aos inimigos do missionário. Eles não podem livrar-se do padre, contando com a aprovação da imperatriz e a conivência do mandarim de Ningaiang, então decidem matá-lo. Os catecúmenos, porém, percebendo o perigo, apressam-se a avisá-lo para que se afaste da região. Ele, porém, considera indecoroso e injusto abandonar seus cristãos bem na hora de maior dificuldade. Permanece em Tsinkanping, a meio quilômetro de Yanzibian. 

No dia 20 de julho, a guarda territorial de Talanhuo saqueia a casa do catequista e  padre Alberico, percebendo que sua presença causa ainda mais violência, decide, de má vontade, deixar a missão e se colocar sob a proteção do mandarim. Triste e amargurado, recolhe os poucos pertences em duas cestas e, a cavalo, acompanhado pelos seus catequistas e por alguns cristãos, parte em direção ao campo. 

Mas é tarde demais. Ao anoitecer, vê chegar inesperadamente o guarda fiscal Jao que, insistentemente, convida-o a pernoitar, porque as estradas não são seguras, enquanto na alfândega - insiste - não há o que temer. O missionário acaba aceitando. Mais tarde, tomado por tristes pressentimentos e solicitado, com insistência, pelos seus companheiros, que compreendem a emboscada, procura colocar-se de novo em marcha. "No caminho, centenas de pessoas armadas te esperam, este é o único lugar seguro", retruca o alfandegário, que o convence definitivamente a ficar. 

Três tiros de morteiro quebram o profundo silêncio noturno. É o sinal combinado. Muitas pessoas se aglomeram à porta da alfândega para retirar o "diabo europeu". O alfandegário, hipocritamente magoado, aproxima-se do missionário: "Vês quantas pessoas se juntaram contra ti? É impossível para mim te defender. A única saída, se conseguir, é a porta de serviço, que dá para o monte", e o empurra porta afora. Mas, para onde fugir? A montanha, atrás da casa, é íngreme. Padre Alberico sabe que não tem saída. Ajoelha-se e reza. A turba cai em cima dele: "Por que vocês fazem isto?" - pergunta aos agressores -. "Que mal lhes fiz? Se vocês têm alguma acusação a fazer, a falar, levem-me às autoridades". Como resposta, um terrível golpe por pouco não lhe decepa o braço esquerdo e outro, destinado à cabeça, esmaga-lhe o nariz e os lábios. Atordoado pelos golpes de bastão e pelas feridas, é arrastado; a seguir, obrigam um catecúmeno a carregá-lo nos ombros. Enfim, após amarrarem mãos e pés, é suspenso a um tronco e transportado como animal ao matadouro. 

Depositado no centro do mercado de Yanzibian, padre Alberico fica em poder da multidão que o submete a inúmeras sevícias. Assim passa a noite, alternando momentos de delírio e de lucidez, durante os quais reza pelos perseguidores, que, no entanto, passam o tempo embriagando-se e jogando. Amanhece. O sol já está alto quando os assassinos decidem pôr fim às torturas. Enquanto discutem como matá-lo, chega um mandarim militar, avisado pelos catecúmenos na noite anterior. Traz consigo vinte soldados, mas logo percebe que, diante da multidão exaltada, eles não são suficientes para impor a ordem e ajudar o padre. Limita-se, por conseguinte, a exortar os revoltosos a que não o matem. Quer ganhar tempo e levar o missionário a um médico. Enquanto um funcionário e os soldados procuram uma padiola, o padre é arrastado com uma corda até à beira de um rio, que corre perto do mercado, e ali é decapitado, cortado em pedaços e jogado na correnteza. 

É meio-dia do dia 21 de julho de 1900. Padre Alberico Crescitelli tem 37 anos. Como ele, durante a revolução dos Boxer, são martirizados, na China, milhares de cristãos. No dia 18 de fevereiro de 1951, o Papa Pio XII declara-o bem-aventurado.

É canonizado por João Paulo II, em 01 de outubro de 2.000. É um dos 120 mártires chineses.